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Levy






sexta-feira, 11 de junho de 2010

Demita seus Gurus

O seguidor não percorre uma trajetória própria, e sim a de um outro, porque se trata de um caminho já palmilhado. Portanto, não há necessidade de muito esforço para segui-lo. Tampouco o discípulo aprende as mesmas lições. A conclusão a que o mestre chega - o resultado do trabalho espiritual - não é a mesma a que chega seu seguidor. O mestre experimentou tanto a trajetória quanto o destino. O discípulo conhece apenas o destino, conforme descrito pelo mestre. 
Esta é a razão pela qual os discípulos quase sempre são mais santos do que o papa e mais radicais em suas opiniões do que o mestre. Tais opiniões, não raro, podem ser reduzidas a cápsulas de fácil digestão. Afinal, quanto mais inseguras forem as pessoas, tanto mais se apegarão à "verdade". Além disso, a maior parte dos discípulos não entende totalmente os ensinamentos do mestre, por isso insights sutis e complexos são pasteurizados de forma a que se convertam em conceitos de fácil absorção e entendimento. 
Os gurus prometem a iluminação para o futuro, e condenam seguidores à dependência 
O paradoxo que muita gente encontra em sua busca por iluminação se deve ao fato de que esse estado de consciência não corresponde ao apego a "verdades" e "fatos". Muitas verdades e fatos não passam de pressupostos ou formas de lidar com a realidade. A palavra "fato", em seu sentido original no latim, "facere", significa "fazer". Um fato não é uma verdade, e sim uma criação. Portanto, não perdemos nossa "natureza búdica" por causa daquilo que não sabemos, e sim por causa daquilo que estamos convictos de saber porque outras pessoas assim nos disseram. No momento em que nos convencemos de que alguma coisa é fato, perdemos contato com a realidade. Reduzimos a verdade (supondo-se que ela exista) a uma palavra ou um método, e nos fechamos ao aprendizado e ao crescimento. 
Talvez os gurus não sejam mestres a serem imitados. Talvez sejam muito mais exemplos que podem nos servir de inspiração. Eles nos mostram que é possível atingir um estado superior de consciência, mas cabe a nós chegar lá. Portanto, é hora de mandar embora os gurus (fatos, verdades, crenças, princípios, dogmas) para que o guru dentro de nós aflore. É hora de nos tornarmos tão grandes quanto os gurus que seguimos - tão autênticos, peculiares e obstinados quanto eles. Não se trata de um ato de transgressão ou de desrespeito. A maior homenagem que podemos prestar a nossos gurus é deixar claro que não precisamos mais deles. O tratamento deu certo: "o guru morreu”. 
Este artigo foi publicado originalmente na edição de setembro de 2007 da revista Ode

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